O sofisticado sentimento da amizade tem sido tema de reflexão de grandes pensadores ao longo da história. Muitos deles a apresentam como a verdadeira cura para os males humanos, devido ao aspecto harmonioso que pode proporcionar à interação social. Nesse sentido, pergunta-se, nos dias de hoje, como podemos definir o efeito curativo da amizade? Qual é a relação desse sentimento com o progresso da vida em comunidade e com o avanço particular de seus indivíduos? Quais empecilhos a sociedade contemporânea precisa enfrentar para estabelecer, de fato, relações mútuas de respeito que resultem em uniões gratificantes de amizade?
Montaigne e a união de almas
Quando buscamos as relações de amizade, atendemos ao nosso próprio instinto, que visa à sensação agradável de paz e bem-estar ao nos sentirmos parte integrante de uma associação com pessoas afins. O filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592), em seus Ensaios – obra em que dedica um capítulo especial ao tema -, justifica tal afirmação como um aparente interesse muito particular da nossa natureza em nos impulsionar em direção à amizade, pois, por meio dela, exercemos nossa necessidade de interação social.
Vale lembrar que o ensaio supracitado foi escrito em um momento de grande pesar pela morte de seu melhor amigo, Étienne de La Boétie (1530-1563), com quem manteve uma relação “tão inteira e completa” que o faz duvidar ser possível encontrar homem igual entre os outros de seu tempo, talvez nem mesmo em séculos (MONTAIGNE, 1972, p. 178).
Montaigne define a amizade como fundida e entrosada em uma única alma, tão unida que não se distingue, nem é possível encontrar sua linha de demarcação. Em suas palavras:
Se insistirem para que eu diga por que o amava, sinto que não o saberia expressar senão respondendo: porque era ele; porque era eu. (MONTAIGNE, 1972, p. 182)
Aristóteles e a amizade como excelência moral
O importante filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) antecede Montaigne ao falar de amizade em um dos textos mais relevantes sobre o tema, presente na obra Ética a Nicômaco. O início do capítulo explica a natureza desse sentimento como uma forma de excelência moral, ou acompanhada da excelência moral, além de necessária para a vida. Segundo ele, “ninguém deseja viver sem amigos”, justamente pelo caráter nobilitante da amizade, “pois com amigos as pessoas são mais capazes de pensar e de agir” (ARISTÓTELES, 1985, p. 153), o que corrobora a constatação do importante fator psicológico positivo que podemos vivenciar por meio da amizade.
Montaigne faz questão de salientar o caráter qualitativo da amizade. Ela não se encontra nas relações em que se buscam satisfações de prazeres, o usufruto de vantagens ou a conquista de interesses públicos e privados, classificando as desse tipo como menos belas e menos generosas, por visarem fins não ideais (MONTAIGNE, 1972, p. 178).
A visão de Bauman sobre medo e desconfiança
Ao analisarmos sociologicamente o ponto em que nos encontramos na linha do tempo histórico, deparamo-nos com “a forte tendência a sentir medo e uma obsessão maníaca por segurança”, frisa o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) em seu livro Confiança e medo na cidade. Segundo ele, se não podemos nos livrar de todos os sofrimentos humanos – inclusive o próprio medo de sofrer e o medo em si –, podemos, contudo, eliminar alguns e atenuar outros, e sempre vale a pena tentar (BAUMAN, 2009, p. 13-14).
Para Bauman, os fatores que levam os indivíduos à angústia resultam da miséria de origem social, que divide os sujeitos em classes cada vez mais antagônicas, determinando que a desconfiança seja difundida em escala geral. Esse cenário, em que a proteção disponível não é capaz de suprir nossas mínimas expectativas, redunda em relações que não são aquelas que gostaríamos de desenvolver, pois o clima que paira no ar induz a imaginarmos “maquinações hostis, complôs, conspirações de um inimigo que se encontra em nossa porta ou embaixo da nossa cama” (BAUMAN, 2009, p. 15).
A função social da amizade
Tais características do mundo novo são obstáculos para o estabelecimento da amizade, pois ela pressupõe tempo e intimidade, e seu surgimento de fato necessita da recíproca confiança entre as pessoas, da sensação de que uma não fará mal à outra (ARISTÓTELES, 1985, p. 156-157).
Montaigne argumenta, da mesma forma, que a amizade cresce com o desejo que temos dela e se desenvolve na frequentação, haja vista que é essência da espiritualidade, e praticá-la apura a alma (MONTAIGNE, 1972, p. 180).
Ao contrário, no ambiente de suspeição dos outros e de suas intenções, nos recusamos a confiar (ou não somos capazes de fazê-lo) na constância e na regularidade da solidariedade humana (BAUMAN, 2009, p. 16), qualidade que fundamenta a amizade, segundo Aristóteles, pois as pessoas com “boa vontade recíproca se desejam bem reciprocamente” (ARISTÓTELES, 1985, p. 155).
Sobre o resultado prático da amizade na esfera social, Aristóteles, distante de nosso tempo, compartilha a própria experiência explicando que, ao viajarmos para outros lugares, é possível observar a prevalência de uma generalizada afinidade e de afeições naturais entre as pessoas. Continua, frisando a função das amizades em manter as cidades unidas, o que justifica a atitude dos legisladores em assegurá-la mais que tudo por sua capacidade de gerar concórdia (ARISTÓTELES, 1985, p. 153).
Assim sendo, a amizade interfere de forma preponderante nas relações que desenvolvemos na sociedade e na nossa qualidade de vida, tendo em vista que todas as espécies de associações que constituem a comunidade política, na qual os homens caminham juntos em busca de vantagens ou mesmo por sobrevivência, são qualificadas pelos legisladores como justas por serem reciprocamente vantajosas e por contribuírem para o rumo positivo de tais comunidades (ARISTÓTELES, 1985, p. 164).
A atual sociedade caminha para esse estado de coisas negativas devido ao acirramento do individualismo, solução encontrada contra seus males relacionados à dependência do meio social. Ela substitui a integração das comunidades solidamente unidas por muros de segurança que as segregam, impondo o dever individual de cuidar de si próprio e de fazer por si mesmo, o que consiste na supervalorização do indivíduo. Quando isso ocorre, a competição assume o lugar da solidariedade, pois os indivíduos se sentem abandonados a si mesmos e acabam preterindo os “laços naturais” a favor dos “laços superficiais” da modernidade líquida, marcada pela dissolução das relações entre os sujeitos (BAUMAN, 2009, p. 16-21).
Se o que prevalece na sociedade líquida, acima de tudo, é o cuidar de si, vivemos um momento propício para as amizades acidentais, definidas por Aristóteles como sendo aquelas fundadas no interesse em tirar algum proveito ou prazer. Tais amizades se desfazem facilmente, se as pessoas não permanecem como eram no início da relação, pois, caso uma delas já não seja agradável ou útil, a outra cessa de amá-la. E a utilidade não é uma qualidade permanente, mas um critério em constante mudança. Portanto, desaparecido o motivo da amizade, esta se desfaz, uma vez que existe somente como um meio para chegar a um fim (ARISTÓTELES, 1985, p. 155).
Aristóteles define que a amizade perfeita é a que existe “entre as pessoas boas e semelhantes em termos de excelência moral”. Nessa relação, cada uma delas quer o bem da outra de forma idêntica, “porque a outra pessoa é boa e ambas são boas em si mesmas”, ou seja, querem bem pela própria natureza dos amigos, não por mero acidente. Nesse caso, a utilidade e a agradabilidade recíprocas estão presentes na amizade devido à bondade irrestrita na união. Assim, as pessoas extremamente felizes não necessitam de amigos úteis, mas agradáveis. Necessitam da convivência para suportarem tudo aquilo que causa sofrimento, pois não conseguiriam resistir por muito tempo às agruras da vida solitária (ARISTÓTELES, 1985, p. 156-160).
Efetivamente, o que há de mais característico nas amizades é o desejo dos amigos de viverem juntos. As pessoas necessitadas desejam a ajuda dos amigos e até as mais prósperas desejam estar acompanhadas, mas só combinam seus caminhos se forem mutuamente agradáveis e possuírem afinidades de gostos e caráter (ARISTÓTELES, 1985, p. 158).
Ao gostarem de seus amigos, as pessoas gostam do que é bom para si mesmas, pois as pessoas boas, quando se tornam amigas, tornam-se um verdadeiro bem para seus amigos. Somente esse tipo de amizade é “imune à calúnia”, pois é difícil que se dê crédito a qualquer um que fale sobre um amigo que foi colocado à prova diversas vezes durante a construção desse sentimento. O aparecimento de suspeitas só é possível em outros tipos de amizade (ARISTÓTELES, 1985, p. 157-159).
Para Montaigne, nas amizades comuns, sempre há que “segurar as rédeas” e ter prudência, pois não apresentam solidez suficiente para serem dignas de confiança (MONTAIGNE, 1972, p. 184).
Até as pessoas desiguais podem ser amigas. Segundo Aristóteles, a “igualdade e semelhança” entre os amigos que possuem excelência moral pode ser construída se mantiverem constância recíproca e não se prestarem a serviços degradantes. Funciona quando um afasta o outro do mal, pois têm o cuidado de não errar e de evitar que o amigo também erre, o que são características das pessoas boas. No entanto, se forem “moralmente deficientes”, compartilharão de amizade efêmera e diferente de si mesmas (ARISTÓTELES, 1985, p. 162-163).
Quando um amigo é beneficiado “a respeito de riqueza ou excelência moral”, espera-se que contribua com todas as honrarias que puder, pois a amizade exige que os amigos façam tudo o que possam um pelo outro, e não somente aquilo que devem (ARISTÓTELES, 1985, p. 171).
Bauman relembra uma passagem da vida de estudante que o marcou muito. Seu professor de antropologia dizia que os antropólogos conseguiram identificar a aurora da sociedade humana graças à descoberta do esqueleto fóssil de uma criatura humanoide inválida que tinha a perna quebrada desde a infância, apesar de ter morrido por volta dos 30 anos (BAUMAN, 2009, p. 90).
A conclusão de seu professor foi que aquela deveria ser uma sociedade humana, pois, em meio a um bando de animais, não seria possível que a criatura pudesse sobreviver tanto tempo com uma perna quebrada. O sociólogo constata, assim, que a sociedade humana é diferente do bando de animais: nela, alguém pode ajudar um inválido a sobreviver. Ela é diversa porque tem condições de conviver com inválidos – tanto que poderíamos dizer, historicamente, que a sociedade humana nasceu com a compaixão e com a preocupação em cuidar do outro, qualidades apenas humanas e presentes nas relações de amizade (BAUMAN, 2009, p. 90).
Se os seres humanos aceitam e apreciam seus pares e se empenham no diálogo, logo veremos que as diferenças culturais deixarão de ser um problema. É possível ser diferente e viver junto. Pode-se aprender a arte de viver com a diferença, respeitando-a, salvaguardando a diversidade de um e aceitando a diversidade do outro.
A preocupação de nosso tempo se resume a isso: devemos levar essa compaixão à esfera planetária, algo já enfrentado por outras gerações. Nosso dever é prosseguir nesse caminho, gostemos ou não.
Referências bibliográficas
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Brasília: Editora UnB, 1985.
BAUMAN, Z. Confiança e medo na cidade. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2009.
MONTAIGNE, de M. “Da Amizade”. In Ensaios (Coleção Pensadores). São Paulo: Ed. Abril, 1972.
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Imagem: Quadro de Pierre-Auguste Renoir, “Luncheon of the Boating Party” (1880-81).
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Parte do artigo “Amizades intocáveis” (Revista Pandora, São Paulo, p. 47-60, 01/maio/2013).




