Quadro "Alone in the fog" do pintor bielorrusso Leonid Afremov (2014)

Caminhante, de Antonio Machado: o poeta existencialista

Caminhante, um dos poemas mais conhecidos de Antônio Machado, concentra um interessante conteúdo filosófico ligado ao debate entre essência e existência. Esse traço, presente também em outras criações do poeta existencialista, é característico de integrantes da chamada “Geração de 98”, grupo de escritores espanhóis (como José Ortega y Gasset e Miguel de Unamuno) cujas reflexões literárias criticavam a profunda crise social e econômica instaurada após a derrota da Espanha na Guerra Hispano-Americana (1898), com a consequente perda de Porto Rico, Cuba e Filipinas para os Estados Unidos.

A filosofia do holandês Baruch Spinoza representa, por excelência, uma filosofia da essência. A essência de algo é seu ser verdadeiro e profundo, em contraste com as aparências. Ela constitui a substância, “necessariamente existente”, isto é, Deus (natura naturans). Uma propriedade é essencial a um objeto quando ele não poderia existir sem ela. Para Spinoza, os fenômenos do mundo são infinitas manifestações da natureza divina (natura naturata).

existencialismo, por sua vez, subverte essa perspectiva ao afirmar que “a existência precede a essência”. Segundo o filósofo francês Jean-Paul Sartre, o homem é responsável por suas escolhas e cria a si mesmo ao longo da vida. Assim, está “condenado à liberdade”: condenado porque não se criou a si mesmo e, no entanto, livre porque, uma vez lançado ao mundo, carrega a responsabilidade por tudo o que faz.

É nesse horizonte que a poesia de Antônio Machado se destaca: seu lirismo captura com simplicidade as emoções e ações que constituem a existência humana. Enquanto para os essencialistas a chamada natureza humana seria a explicação da vida, imutável e eterna, para o poeta existencialista o contrário ocorre: é a própria vida, em sua transitoriedade, que define o humano. A essência não é uma entidade fixa, mas algo em constante transformação, moldado pela experiência.

Sua obra traz referências à história, às angústias e às contradições da contemporaneidade, estabelecendo diálogos entre passado, presente e futuro. Ao mesmo tempo, remete à pátria e à condição existencial do homem em sua individualidade. No poema reproduzido a seguir, esse olhar se revela sobretudo na reflexão sobre o destino humano, inevitavelmente ligado ao caminhar e às marcas transitórias que o sujeito deixa na vida.

Caminhante, não há caminho

Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória
nem deixei na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão

Gosto de vê-las pintar-se
de sol e graná, voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se…

Nunca persegui a glória

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
“Caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar…”

Ao andar faz-se caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a estrada que nunca
se há de voltar a pisar

Caminhante não há caminho,
senão rastros no mar…

Há algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
ouviu-se a voz de um poeta gritar
“Caminhante não há caminho,
faz-se caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se viram-no chorar
“Caminhante não há caminho,
faz-se caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um estranho.
Quando de nada nos serve rezar.
“Caminhante não há caminho,
faz-se caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso.

Antonio Machado – [Sevilha, 26/7/1875 – Collioure, 22/2/1939]

Referências bibliográficas

MACHADO, A. Antologia Poética. (Seleção, tradução, prólogo e notas de José Bento). Lisboa: Editorial Cotovia, 1999.

SARTRE, J.P. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Nova Cultural, 1973. (Col. Os Pensadores)

SPINOZA, B. Tratado Político. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Col. Os Pensadores)

Imagem: Quadro de Leonid Afremov, “Alone in the fog” (2014).